Suprema estampa: “Espelho, espelho meu, existe alguém mais SUPREMO (A) do que eu?”

Engana-se quem pretende decifrar as mentes e as atitudes dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) apenas pelos cânones da Ciência Política ou da Propedêutica Jurídica. Suas narrativas e veredictos não são bafejados pelas luzes do Direito, para fins republicanos ou de justiça, mas, primordialmente, por pulsões inconscientes, prenhes de incontidas motivações pessoais, narcisistas, egocêntricas, ainda que travestidas de aparente “magnanimidade” – tornando-se a Psicanálise o seu melhor marcador.

Por razões insondáveis de suas próprias histórias pessoais – seus indisfarçáveis esforços de auto afirmação, de cultivo exacerbado da auto estima, de superação de complexos inauditos de personalidade –, fato é que o “espelho” (auto consciência) de Suas Excelências, com o passar dos anos, tornou-se côncavo, enfunado, em cuja superfície suas auto imagens passaram a refletir em tamanho desproporcional, invertendo-lhes a dimensão da realidade.

Os senhores monarcas do manto preto se veem (e se pensam) maiores do que são – e, por conseguinte, os outros, inferiores em brilho e estatura. Tornaram-se, assim, solipsistas, patologicamente autorreferentes, inconscientemente capturados pela armadilha de suas singulares e camufladas anomias. São alfa e ômega de suas próprias (e ilusórias) produções de sentido – numa espécie de tradução herética do cogito cartesiano em “falo, logo existo”.

Sim, as badaladas “celebridades togadas” adoram falar (fora dos autos), impressionar, ser continuamente aplaudidas e bajuladas pela grande mídia e pelas coniventes e símeis “elites” – na ausência absoluta de empatia, crédito, reconhecimento e apreço popular. Jamais escutam (ou consideram) o que não lhes interessa, muito menos a voz do povo (“reles mortais”) – usurpando-lhe, em desfaçada rapinagem, a consagrada (e devida) soberania.

E quando fingem fazê-lo – para efeito de marketing ou por pura demagogia –, fazem-no filtrando ideias e opiniões à arrivista conveniência, sem absorver ou valorizar quaisquer pontos de vista dissonantes – pois o protagonismo das abordagens (e da “verdade”) terá de ser, sempre, de suas “pródigas” e “beneméritas” alçadas. Não por acaso cultivam muitos bajuladores e poucos amigos – alguns perdidos ao longo da ensimesmada e aparatosa trajetória.

Não são raros, entre os membros da alterosa corte, aqueles que, ávidos de louvação, gozam e deliciam-se em locucionar, publicamente – como único “êxtase” restante –, artificiosas e empoladas formulações, de esboçado impacto oratório, contudo sem citar ou revelar – para não “brochar” – a originária matriz de “inspiração”, induzindo as aduladoras plateias a creditar-lhes, por astuciosa reverência ou cabal ignorância, o mérito saqueado da fonte, diluída nos destilados e facciosos argumentos. Apropriam-se, sem censura, de contribuições alheias, extorquindo-lhes, indecorosamente, o dote e o direito autoral, com o único intento de conferir, sem pudor ou constrangimento, “originalidade”, “charme” e “plasticidade” às suas esnobes e inócuas arguições.

Vulneráveis a pressões políticas de bastidores – quando não, reféns licenciosos de seus suspicazes patronos de origem –, costumam valorizar as articulações “sigilosas” das coxias, os preços “vantajosos” das encomendadas sentenças, sem qualquer pudor ou acanhamento em maquiar, quando necessário, as volúveis hermenêuticas de ensejo. Em seus malabarismos casuísticos, o que menos conta é fazer justiça ou garantir o cumprimento da Lei, já que se julgam, individual e coletivamente, o próprio Estado (l’État c’est moi, c’est nous!), a encarnação “encantada” e onisciente da instituição tout court – atribuindo-se maior reputação e prestígio que o cargo que representam.

Com base na mesma “sacrossanta” premissa, detestam ser incomodados com críticas “inoportunas” e “insolentes”, tampouco com irreverências “desaforadas” e “ímpias”, impertinentemente ameaçadoras do “venerável” status quo que simbolizam e penhoram: condenam e mandam prender, sem misericórdia ou perdão, quaisquer “petulantes profanadores” de suas “imaculadas reputações” (inclusive parlamentares com mandato popular), negando-lhes provimento – tamanha a “heresia”! – à (já não mais pétrea) liberdade de pensamento e expressão.

Os “impolutos” e “castos” habitantes do “Monte Olimpo” (Praça dos Três Poderes), outrossim, não se misturam com as massas “incultas” e “ignóbeis”, com “insignificantes populachos”, com ínfimos figurantes de índole “leiga” e “mundana” – de inferior natureza e textura. Ao invés, plainam, impunemente, em sua “abóbada celeste”, acima da própria Lei, do bem e do mal, onde imaginam reinar ad aeternum, crentes de sua infalível (e alucinógena) “deidade”.

Em suas “redomas de vidro”, costumam cultivar uma imagem de “almas progressistas”, de seres abertos aos desafios de seu tempo, cônscios de suas responsabilidades republicanas e desapegados de interesses particularistas; conquanto que, em realidade, não passam de impostores infestos e arrogantes, de presunçosos e ordinários tiranetes, cultivadores de extrema soberba e desenfreada afetação, saturados de repugnante aleivosia no exercício da nobre função para a qual foram designados – cujo compromisso público desonram e amesquinham.

Do alto de sua empáfia e autossuficiência, “Suas Eminências” matizam, reflexamente, tal qual num acalentado palanque, o seu indefectível e impetuoso azedume. Sempre utilizam o proscênio para indisfarçáveis trapaças performáticas, por vezes destilando, na esteira de súbitos e pungentes descontroles, o ódio e o despeito que sangram de suas veias calcificadas de tanta sanha, rancor e malquerença, em desditoso e caricato espetáculo.

Quando melindradas, plantam cizânia e depreciam, em complô, o “atrevimento” dos imputados adversários de ocasião, no afã de impor, “monocraticamente”, a sua “máxima autoridade” sobre não importa qual “audacioso” e “tosco” plebeu que aspire em roubar-lhes a cena e o cetro.

Ludibriam-se, a todo instante, em suas reais e perniciosas motivações, manipulando, descaradamente, colaboradores e a opinião pública, sem qualquer remorso ou contrição. Todavia, são extremamente corporativos e auto defensivos quando, ante qualquer acusação ou ameaça, assim lhes convém a dadivosa indulgência em causa própria.

Conforme o peso do “cliente” – e os interesses “associativos” sub judice –, encarnam papéis multifários e os representam ao sabor de cada contexto, ostentando gesticulações artificiosas e recursos “exegéticos” ardilosamente adaptados ao embaciado e adulterado enredo, sempre atuando em primeiro plano na execução de suas impecáveis paródias, à luz resplandecente e deslumbrante de fictícia e simulada ribalta. Mas tudo enganosa aparência. Puro fake. Patológico e insólito devaneio. Pois julgam-se senhores absolutos do espetáculo e da bilheteria, além de seus exímios e insubstituíveis fiadores: avalistas, em última instância, de toda a sórdida e anojosa prosopopeia.

E como nunca deixaram de aquilatar-se mais inteligência e esperteza que os demais protagonistas em cena, sempre estiveram convencidos, em seu inabalável narcisismo, da “perfeição” e “superioridade” de suas ilusionistas e simuladas interpretações. Agem sem compunção, patenteando a máxima de Dostoiévski (em Os Irmãos Karamazov) de que “a mentira, contínua a si mesmo e aos outros (…) chega à bestialidade em seus vícios”.

Toda essa “suprema” performance, amoldada de notório preconceito e hipócrita teatralidade, nunca escapou, em verdade, de uma pantomima degradante; de abjeta e malfazeja farsa. Porquanto “Suas Majestades”, sem exceção – cada uma ao seu estilo (e deformidade) –, não passam, no fundo, de figuras amorais e céticas, moncosas e humanamente comezinhas: descrentes das utopias, incrédulas da política e profanadoras de qualquer sentido prazeroso (ou teleológico) da vida.

De caráter geneticamente corrompido, filtram o mundo enclausuradas em suas narcísicas redomas e, inconscientemente, reduzem a realidade à visão turva e distópica de suas próprias (e despiciendas) existências, numa tentativa frustrada de contornar suas irremediáveis e psicóticas idiossincrasias, cujas veredas já lhes condenam, a priori – sobrevinda a aposentadoria –, ao temido ostracismo público e ao suplício da insignificância biográfica – pelo que muito se afligem (inclusive perante os seus descendentes) como condenação eterna.

Esta é, em suma, a estampa daqueles que, para ascender, oportunisticamente, a uma função para a qual não apresentavam os atributos mínimos de mérito e caráter, não hesitaram em prostituir-se de vez, sujeitando-se à mendicância de indecorosos apoios políticos, de ladinos senadores, em troca de fama passageira, de reverências enganosas e de efêmero poder – desprovidos, porém, do condão do livramento de seus íntimos e insuportáveis infernos pessoais.

Ademais, como nunca leram (ou assimilaram) Rui Barbosa, ignoram (ou olvidam) a sua célebre e máxima advertência, dirigida, sobremaneira, aos incautos e salafrários de todas as paramentadas e lustrosas insígnias, a cujo universo pertencem: “os canalhas também envelhecem”. Data Vênia.

Alex Fiúza de Mello. Professor Titular (aposentado) de Ciência Política da Universidade Federal do Pará (UFPA). Mestre em Ciência Política (UFMG) e Doutor em Ciências Sociais (UNICAMP), com Pós-doutorado em Paris (EHESS) e em Madrid (Cátedra UNESCO/Universidade Politécnica). Reitor da UFPA (2001-2009), membro do Conselho Nacional de Educação (2004-2008) e Secretário de Ciência e Tecnologia do Estado do Pará (2011-2018).

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